segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Viajando aos Extremos - Alasca: Baía das Geleiras

Conhecido  nos Estados Unidos como “a última fronteira selvagem”, o Alasca compõe os 50 Estados norteamericanos e possui a maior extensão do país, superando Texas, Montana e Califórnia. Por ser muito grande, frio, e possuir uma natureza selvagem como sua principal característica, é um dos Estados menos povoados. Isso reflete em sua baixa densidade de população, que é de 0,42 habitantes por quilômetro quadrado, a menor dos EUA. O Alasca faz fronteira com o Canadá, território do Yukon e com a província da Colúmbia Britânica. É banhado pelo oceano Ártico e pelo Pacífico, além disso, possui parques e ilhas em seu entorno.

Pelo seu caráter de isolamento dos outros territórios americanos, o Alasca é considerado parte dos chamados Estados do Pacífico. Além disso, os únicos Estados norteamericanos que possuem menos habitantes que o Alasca são Vermont, Wyoming e Dakota do Norte. A extensão do Alasca é tão grande que, se o Estado tornasse-se um país independente, estaria na posição de décimo sétimo maior país em extensão em escala mundial. Atualmente há uma grande discussão sobre a independência do Estado. De acordo com as autoridades norteamericanas, o território é o único que pode ser atingido por mísseis provindos do extremo oriente.

Entre todos os territórios dos EUA, o Alasca é considerado o mais setentrional e oriental do país. Isso ocorre devido à localização das 2 ilhas do Arquipélago Aleutas, que ficam no Hemisfério Oriental. Ao norte, o clima é mais gelado e de difícil sobrevivência, por isso as populações que habitam o Alasca vivem na parte sul e sudeste. Grande parte do território praticamente não tem população. Daí o surgimento do nome The Last Frontier, em português, A Última Fronteira. O nome do Estado tem origem em Alyeska, palavra que tem o significado de “terra grande”. Isso provém do idioma dos esquimós que povoam parte do território do Alasca.

A história do Alasca remete ao ano de 1867, quando foi adquirido do Império da Rússia após longa insistência de William Henry Seward, que na época era o Secretário do Estado norteamericano. O valor pago pelo Alasca foi de aproximadamente sete milhões de dólares e, naquele tempo, o Secretário foi duramente criticado pelo gasto, pois os americanos achavam que o território não tinha nenhum benefício e era um bloco de terra, gelo e ursos. Apesar disso, neste Estado criticado houve grande descoberta de reservas naturais, que atraem todos os anos milhares de turistas.

No cinema, o Alasca foi retratado no filme Na Natureza Selvagem, em que um jovem recém-formado decide abandonar a família e iniciar uma jornada pelos EUA com destino final ao Estado, seu maior desafio. No longa-metragem Um Mundo Perfeito, dirigido e atuado por Clint Eastwood, um presidiário que foge da cadeia e sequestra um garoto carrega um cartão postal do Alasca no bolso. Presente de seu pai, o cartão acaba sendo peça fundamental do filme. Em várias passagens, este personagem refere-se ao Alasca como A Última Fronteira.






domingo, 4 de janeiro de 2015

Viajando aos Extremos - Bolívia: O Altiplano

O altiplano boliviano, a 3600 metros de altitude, é local de  origem  do povo tahuanaca, habitante ancestral de um dos maiores atrativos turísticos bolivianos. Conhecido como Salar de Uyuni, nome estabelecido por decreto governamental, as comunidades locais ainda o chamam de Salar de Tunupa, por estar localizado às margens do vulcão de mesmo nome.

A chegada da linha férrea, com a criação de uma estação no município de Uyuni, transformou o local no centro dos serviços logísticos e turísticos que envolvem o grande salar, que possui extensão de 10 mil km² e continua crescendo, pois as inundações da temporada de chuva vão espalhando o sal ainda mais. Há 40 mil anos, antes da formação da Cordilheira dos Andes, tudo aquilo era um grande lago salgado.

O chamado Salar de Uyuni se encontra dentro dos povoados de Tahua e Llica, que são proprietários comuns da Incahuasi, uma ilha pedregosa repleta de cactos rodeada por uma imensidão branca formada por sal, parada quase obrigatória dos tours que levam turistas em jipes para cruzar o deserto. As comunidades dividem os ganhos com os ingressos, que custam cerca de 10 reais. Fora isso, as comunidades pouco se beneficiam do turismo, operado pelas agências localizadas em Uyuni, que cobram cerca de 100 dólares por pessoa para um passeio de três dias com tudo incluído.

Sobrevivendo no deserto

Da ilha se pode avistar ao fundo, no sentido oposto ao que seguem os tours, o grandioso vulcão Tunupa. Cruzando em linha reta boa parte do deserto se chega à comunidade de Tahua, localizada nos pés do vulcão e às margens do salar.

Ali não há sinais de turistas, fora um hotel construído e nem sempre ocupado. A pequena praça central quase sempre se encontra vazia, pois os habitantes passam o dia nos plantios. A prefeita de Tahua, Felicidad Lopéz, destaca o cultivo especialmente de produtos andinos, como as batatas, habas (parecido com feijão), o chuño (batata desidratada) e a quinoa, que o povoado se orgulha por ser considerado um dos locais de origem deste grão nutritivo. "Temos que plantar tudo com nosso próprio esforço, com nossas mãos, pois não temos máquinas para isso", afirma a prefeita.

Outro elemento importante para a vida dos habitantes do salar é a lhama, considerado um animal sagrado. "Domesticar a lhama foi parte fundamental para formar nossa cultura, já que éramos errantes por causa do frio. Com o animal conseguíamos cruzar o salar de uma ponta a outra", conta Adelio Florez, do Comitê Cívico de Tahua. "Ela nos dá vestimenta com sua lã, comida com sua carne, combustível com seu adubo e até seus ossos servem para fazer agulhas para costurar".

O sal também é importante, pois além de dar sabor à comida, permite fazer o charque com a carne da lhama, produto fundamental para alimentação local. A comunidade de Colchani, na entrada do Salar, possui uma cooperativa que realiza a extração de sal e lítio, mas não é o caso do município de Tahua, que durante a temporada de chuvas ainda se vê isolado por conta das inundações.








sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Chuvas no oeste da região sul do Brasil

Clipping - met sul

Depois do último fim de semana de 2014 com muita chuva e temporais no Estado do Rio Grande do Sul, o que trouxe estragos e uma morte, o Rio Grande do Sul voltou a experimentar tempo severo no período da virada do ano com muita chuva e temporais, como alertávamos. O último dia de 2014 teve alternância de sol e chuva isolada na Capital e no Litoral Norte, mas à noite o tempo estava bom na hora da virada. No Norte e no Noroeste do Estado, entretanto, a mudança de ano foi de muita chuva e temporais pela formação de um complexo convectivo de mesoescala que trouxe acumulados de chuva muito altos de 100 a 150 mm (média de chuva do mês inteiro) em diversas cidades destas regiões em curto período, o que causou alagamentos.

No primeiro dia do ano, exatamente como alertado, a chuva se generalizou pelo Estado e foi intensa com temporais em várias regiões. Ontem à noite, quase 300 mil pessoas estavam sem luz em suas casas no Rio Grande do Sul por conta das tempestades que avançavam pelo Estado acompanhando frente fria. Houve alagamentos em várias cidades. Em Rio Grande e no Chuí as ruas foram tomadas pelas águas. Rio Grande teve 70 mm ou dois terços da média de chuva mensal em seis horas.

No Oeste os temporais vieram com vento e chuva forte a intensa, o que deixou cidades sem luz e com queda de árvores. Violento vendaval de 132 km/h atingiu Santa Rosa no começo da noite com registros de muitos estragos na cidade que ficou toda sem luz. Houve queda de grande número de árvores e dezenas de destelhamentos de residências em Santa Rosa. Vendavais trouxeram problemas em outras cidades do Norte e do Noroeste. O desabamento de um galpão causou a morte de 16 vacas no interior de Santo Cristo. Em Independência, a ERS 342 ficou interrompida no trecho em direção a Catuípe. Diversas árvores de grande porte caíram e obstruíram a rodovia. Em São Luiz Gonzaga, uma árvore caiu sobre um veículo, mas ninguém ficou ferido. No interior de São Luiz, a chuva no primeiro dia do ano chegou a 200 mm. Em Dezesseis de Novembro a chuva passou dos 200mm. Na localidade de João de Castilhos a chuva alagou a estrada. O Rio Piraju, na ERS-168, subiu muito. Em Crissiumal, a chuva de até 230 mm da virada do ano causou alagamentos e chegou a derrubar cabeceira de ponte com arroios e córregos transbordando. Já em Três de Maio, dezenas de árvores caíram sobre rodovia.


Dia virou noite mais cedo em Ijuí com a chegada do temporal ontem – Fabiano Bernardes/Rádio Progresso 

Nuvem arco acompanhou a chegada do temporal na tarde do dia 1º em São Borja – Renato Dorneles



quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

67ª Reunião Anual da SBPC

Luz, Ciência e Ação”. É este o tema central definido para a 67ª. Reunião Anual que acontecerá entre os dias 12 e 18 de julho de 2015 no campus da Universidade Federal de São Carlos, em São Carlos, SP. O tema escolhido é alusivo ao Ano Internacional da Luz, que em 2015 será celebrado em diversos países, por decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em reconhecimento à importância das tecnologias associadas à luz na promoção do desenvolvimento sustentável e na busca de soluções para os desafios globais nos campos da energia, educação, agricultura e saúde.

A escolha da UFSCar para sediar a 67ª. Reunião Anual foi uma demanda da própria universidade para a SBPC. Targino de Araújo Filho, reitor da UFSCar, afirma que “a expectativa (com a reunião) é grande e a melhor possível. Já estamos trabalhando intensamente para receber os participantes da 67ª Reunião Anual como um grande evento, que muito nos orgulha, especialmente por acontecer no marco das comemorações dos 45 anos da UFSCar”, comemora Targino.

Programação

Embora o tema central tenha forte conteúdo tecnológico associado à luz, a presidente da SBPC ressalta que todas as áreas do conhecimento serão contempladas na programação científica, como sempre ocorre nas reuniões anuais. “O tema da luz está vinculado a todas as áreas e tem implicações diretas também no campo das humanidades. Portanto, estamos chamando todas as sociedades científicas a participarem ativamente da nossa próxima reunião anual”, conclama Helena Nader.

A 67ª. Reunião Anual da SBPC será aberta no dia 12 de julho, domingo e se estenderá até o sábado, dia 18, quando será realizado pela segunda vez o Dia da Família na Ciência. Essa nova atividade obteve grande participação de público em sua primeira edição, realizada no último dia da 66ª. Reunião Anual, na Universidade Federal do Acre, em julho de 2014. Também será organizada a ExpoT&C, mostra de ciência e tecnologia, com uma maior participação de empresas de base tecnológica, devido ao ambiente propício da cidade de São Carlos. Ainda pela segunda vez acontecerão os eventos simultâneos SBPC Extrativista e SBPC Indígena, realizados pela primeira vez com sucesso, durante a última reunião anual no Acre.




Normas para Envio de Resumo

1. Cronograma
Data
Atividade
Obs.
18/12/14 a 24/03/15
Inscrição
O resumo pode ser inscrito por apenas um dos autores. Resumos com dupla inscrição serão desqualificados. Co-autores ao fazerem inscrição para a Reunião Anual devem informar que NÃO estão apresentando resumos.
20/02 a 31/03
Envio do resumo
Após a confirmação do pagamento no Módulo dos inscritos, será disponibilizado o acesso à submissão do resumo.
02/03 a 06/05
Parecer do resumo
O parecer de aceite ou recusa do resumo será disponibilizado no Módulo dos inscritos entre os meses de fevereiro a maio. Todos os resumos aceitos serão programados para apresentação na forma de pôster (Normas do Pôster).
Junho
Consultar o nº do pôster
O autor de resumos aceitos deverá conferir no site a data programada e o número do pôster.
As sessões de pôsteres ocorrerão de 13 a 17 de Julho das 13h00 às 15h00.
13 a 17/07
Sessões de Pôsteres
Pelo menos um dos autores do trabalho deverá apresentar o pôster na data e local programados.
21/07
Certificado online
O certificado da apresentação do pôster será emitido online (em arquivo PDF) e disponibilizadono site da SBPC, a partir de 21/07. Apenas os pôsteres apresentados receberão certificados.
Novembro
Publicação
Os resumos dos trabalhos apresentados nas Sessões de Pôsteres de acordo com as normas, serão publicados em livro eletrônico online, ISSN nº 2176-1221, em Anais / Resumos.

2. 
O resumo enquadrado em qualquer item a seguir será recusado:
-
Projetos.
-
Resultados preliminares.
-
Resultados fragmentados em vários trabalhos: "pôsteres salsicha".
-
Resumo de trabalho já publicado.
-
Resumo de revisão bibliográfica.
-
Resumo sem rigorosa revisão gramatical, ortográfica, de digitação, de conteúdo e dados da pesquisa, incluindo área, nomes dos autores, título etc.
-
Resumo em desacordo com o formulário online de submissão.

um olhar da biogeografia e da geologia do país. Entrevista especial com Claudio Carvalho e Cássio Roberto da Silva

Clipping do Instituto Unisinos.

Em plena crise do petróleo, dentre outras tantas crises que vive o planeta, a Petrobras encontra a maior reserva do país, o que colocará o Brasil entre os dez maiores possuidores desse recurso natural no mundo. A camada de pré-saltem cerca de 800 quilômetros e se estende de Florianópolis/SC até o sul da Bahia. Compreender como ela se formou e explorá-la hoje envolve especialistas das mais diferentes áreas, fazendo-nos refletir acerca da biogeografia e geodiversidade brasileira. A IHU On-Line entrevistou, por e-mail, o entomologista Claudio Carvalho e o geólogoCássio Roberto da Silva justamente para tratar de questões como a formação da camada de sal, sobre as condições ecológicas do país e sobre os estudos acerca dos fatores climáticos e sua interferência no nosso meio ambiente.
O professor Claudio, ao falar da relação entre ciência e fé, nos diz que, cientificamente, a Bíblia pode ser considerada o primeiro livro de biogeografia, “pois indica um centro de origem de todas as espécies e um modo de dispersão deste centro de origem para lugares onde as espécies não ocorriam”. Já o professor Cássio nos conta que “a retirada do petróleo em águas profundas exige uma complexa tecnologia, devido ao ambiente em geral inóspito ao ser humano. Sendo que, nesse processo até a chegada no continente, oferece riscos ao meio ambiente e alguns acidentes têm ocorrido. Entretanto, esse é o preço que pagamos para o nosso bem-estar (chuveiro quente, combustível para o automóvel, fogão etc.)”.
Claudio José Barros de Carvalho é graduado em Ciências Biológicas, pelas Faculdades de Humanidades Pedro II, no Rio de Janeiro. Na Universidade Federal do Paraná (UFPR), realizou mestrado e doutorado em Entomologia. É também pós-doutor pela The Natural History Museum, na Inglaterra. Atualmente, é professor na UFPR e presidente da Sociedade Brasileira de Entomologia, além de consultor da Sociedade Brasileira de Zoologia.
Cássio Roberto da Silva é graduado em Geologia e mestre, pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo. Atualmente, é doutorando em Geologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É geólogo do Serviço Geológico do Brasil. Organizou o livro Geologia médica no Brasil (Rio de Janeiro: CPRM-Serviço Geológico do Brasil, 2006).
Confira as entrevistas.
Entrevista com Claudio José Barros de Carvalho
IHU On-Line – De que forma o estudo da biogeografia brasileira, ao longo de todos esses anos, contribui nas pesquisas para a exploração do pré-sal e, principalmente, na questão do uso que será dado a ele?
Claudio José Barros de Carvalho – A biogeografia é a ciência que estuda a distribuição geográfica dos seres vivos no espaço através do tempo. Esta definição é acurada, mas esconde uma complexidade de métodos e procedimentos que procura entender onde e como os organismos vivem no local onde ocorrem. No Brasil, os estudos biogeográficos foram incrementados nos últimos 50-60 anos com o conhecimento mais preciso da distribuição dos organismos e como este padrão poderia ser analisado e entendido. Foram e estão também sendo investigados processos que podem ter originado esses padrões. A camada do pré-sal foi formada há 150 milhões de anos com o início da fragmentação doGondwana [1], supercontinente que se quebrou para a formação de diversos continentes atuais como a América do Sul, África, Antártica e Austrália. A melhor utilização do uso desta camada deve ser estudada por pesquisadores de outras áreas do conhecimento, como a Geologia, por exemplo.

IHU On-Line – Em sua opinião, que condições ecológicas vive o Brasil hoje?
Claudio José Barros de Carvalho – Esta pergunta é difícil de responder e com certeza poderia ser desenvolvida em livros e tratados. Biogeograficamente falando, estamos perdendo um grande número de espécies a cada ano pela destruição de grandes áreas. Isto é um fato palpável, mas pouco entendido e dimensionado biologicamente, ou melhor, biogeograficamente. Estão sendo perdidas espécies mesmo antes de conhecê-las. Sem pensar nas espécies introduzidas pelo homem, a ocorrência de qualquer organismo em qualquer lugar não se dá por acaso, isto é, fatores históricos e também ecológicos indicam esta localização. A biogeografia ensina que o espaço não é um conceito absoluto, mas relativo. Isto é, apenas faz sentido o espaço (ou área) se utilizar também a componente forma (a variação de todos os atributos dos organismos) e o tempo (como ele afetou a distribuição desses organismos). Por isso, temos de usar a história para entender a distribuição dos organismos no presente.

IHU On-Line – Quais as principais diferenças entre biogeografia e ecogeografia?
Claudio José Barros de Carvalho – A biogeografia pode ser dividida academicamente em dois grandes níveis, em termos de escala, padrão e processos envolvidos na formação desses padrões: o nível histórico estudado pela biogeografia histórica e o nível ecológico estudado pela biogeografia ecológica. Enquanto que no primeiro nível destaca-se o estudo do padrão de distribuição congruente de táxons distintos, o segundo destaca-se pelo padrão de distribuição individual dos organismos. Penso que qualquer ação integrativa de planejamento deve ser calçada nos conhecimentos destes dois níveis, tendo como objetivo a melhor utilização do ambiente.

IHU On-Line – De que forma os fatores climáticos atuais interferem na biogeografia brasileira?
Claudio José Barros de Carvalho – Já existem algoritmos genéticos para estimar a expansão e redução de áreas de distribuição de organismos. Sem entrar em detalhes se essas variações climáticas são decorrentes da ação humana ou natural, não podemos deixar de entender que as variações climáticas na Terra ocorrem há milhões e milhões de anos, desde que o mundo é mundo. A biogeografia histórica nos ensina a entender isto. Saber como estas variações climáticas ocorreram e como afetaram os organismos no passado nos dará subsídios para saber como afetará os organismos atualmente.

IHU On-Line – Qual a importância dos estudos que Alfred Russel Wallace [2] fez na Amazônia para a biogeografia brasileira?
Claudio José Barros de Carvalho – A viagem de Alfred Wallace, junto com seu amigo Henry Bates [3], à Amazônia, revolucionou a biogeografia, não apenas brasileira, mas também a mundial. Pela primeira vez, foi constatada a importância de conhecer a exata localização das espécies. Com ela, foi possível conceituar as áreas de endemismos da Amazônia, hipóteses que estão sendo refinadas deste então, mas que começaram com as viagens de Wallacepelos Rios Amazonas e Negro. A partir desses estudos, foi indicado como os grandes rios podem ser barreiras efetivas na distribuição das espécies, dando lugar mesmo ao entendimento de como toda a biota amazônica evoluiu. Esta foi a primeira explicação biogeográfica dos padrões de distribuições dos organismos amazônicos.
IHU On-Line – Como o senhor analisa a relação das concepções religiosas como a biogeografia?
Claudio José Barros de Carvalho – Ciência e religião são áreas que normalmente atuam em lados diferentes. Uma é a razão (aceitação geral, métodos, ciência) a outra é a fé (aceitação pessoal, crença, religião). Cientificamente falando, a Bíblia é o primeiro livro de biogeografia, pois indica um centro de origem de todas as espécies e um modo de dispersão deste centro de origem para lugares onde as espécies não ocorriam. Esta visão foi repetida também na Arca de Noé e mesmo na concepção da Torre de Babel. Biogeograficamente, esta visão ficou conhecida como uma linha de pensamento chamada Biogeografia dispersionista onde a explicação de qualquer padrão de distribuição passava sempre por um local de origem e dispersão dos membros para outras áreas. Esta visão mudou apenas há 50 anos com a concepção da vicariância [4] onde a fragmentação da área podia também alterar/modificar os organismos que ocorriam nesta área. É sempre bom lembrar que, biogeograficamente, a área é um conceito relativo onde apenas faz sentido com os componentes de forma (a variação dos atributos dos organismos) e de tempo  (como ele afetou a distribuição desses organismos).
Entrevista com Cássio Roberto da Silva
IHU On-Line – De que forma o estudo da geodiversidade brasileira, ao longo de todos esses anos, contribui nas pesquisas para a exploração do pré-sal e, principalmente, na questão do uso que será dado a ele?
Cássio Roberto da Silva – A geodiversidade compreende o estudo da natureza abiótica (meio físico), a qual é constituída por uma variedade de ambientes, composição, fenômenos e processos geológicos que dão origem às paisagens, rochas, minerais, águas, fósseis, solos, clima e outros depósitos superficiais, que propiciam o desenvolvimento da vida na Terra, tendo como valores intrínsecos a cultura, o estético, o econômico, o científico, o educativo e o turístico. Nesse estudo, tem-se a prospecção e a exploração do pré-sal e, neste caso, supõe-se que o seu uso seja efetivado em bases sustentáveis.

IHU On-Line – Em sua opinião, quais são as  condições ecológicas do Brasil hoje?
Cássio Roberto da Silva – Certamente, as condições ecológicas atuais são bem melhores do que há 15 anos, antes da Rio 92 [5]. Ou seja, os cuidados com o meio ambiente têm avançado significativamente. Todas as empresas de grande e médio porte da mineração possuem o seu setor ambiental. Como exemplo, verifica-se que cerca de 80% das empresas de mineração de grande porte e 37% das de médio porte possuem a ISO 14000 [6], relativa à certificação ambiental de seus processos de extração de minérios. Todas as mineradoras de grande porte têm implantado o Sistema de Gestão Ambiental (SGA) e acerca de 75% as de médio porte. 

IHU On-Line - O que acontece com o meio ambiente quando o petróleo é retirado? Qual é o ambiente propício para a formação do petróleo?
Cássio Roberto da Silva - A retirada do petróleo em águas profundas exige uma complexa tecnologia, devido ao ambiente em geral inóspito ao ser humano. Sendo que, nesse processo, até a chegada no continente, oferece riscos ao meio ambiente e alguns acidentes têm ocorrido. Entretanto, esse é o preço que pagamos para o nosso bem-estar (chuveiro quente, combustível para o automóvel, fogão etc.). O petróleo é formado há milhões de anos, precisando para tanto a rocha geradora  (quantidade grande de material carbonoso e pressão e temperatura adequadas para transformar esse material em óleo e/ou gás) e a rocha reservatório, onde o óleo se acumula.

IHU On-Line - Para o senhor, o que significa, em relação à geologia brasileira, o descobrimento dessa quantidade de petróleo na costa brasileira?
Cássio Roberto da Silva - A geologia brasileira é riquíssima. Temos rochas com idade 3,6 milhões de anos até os dias atuais e registros de seres vivos desde 1,2 bilhões de anos. Também temos quantidades expressivas de metais metálicos, não-metálicos, industriais, radiativos, água mineral, rochas ornamentais, gemas, minerais preciosos e materiais para a construção civil. E mais: possuímos uma imensa quantidade de águas nas bacias hidrográficas e de águas subterrâneas (como o aqüífero Guarani). As paisagens são originadas por processos geológicos. Também o nosso país é privilegiado nesse sentido, as quais atualmente vêm sendo muito difundidas através do geoturismo.
Sem sombra de dúvida, essa quantidade de petróleo é uma dádiva para o povo brasileiro. Se considerarmos que este bem mineral é a  nossa principal matriz energética, poderemos dar um grande passo para nos tornarmos uma rica nação, a qual espero que tenha o mínimo de diferenças sociais. Aqui devemos registrar a competência e insistência do quadro de geólogos da Petrobras, que levaram a empresa a ser reconhecida mundialmente e agora também contribuindo para a melhoria do nosso país.

IHU On-Line - De que forma os fatores climáticos atuais interferiram na geodiversidade brasileira?
Cássio Roberto da Silva - Apesar das críticas ao modelo do IPCC por não considerar os dados das ciências da Terra e estabelecer cenários que suscitam algumas dúvidas, a intervenção do homem no meio ambiente é notória e, assim, no Brasil, deve-se já ir pensando na adaptação com vistas a se adequar aos impactos causados pela mudança global do clima, por meio da formulação e implementação de um conjunto de estratégias setoriais. Essa adequação se baseia na identificação da vulnerabilidade dos biomas brasileiros ao aumento da concentração de gases de efeito estufa e dos impactos decorrentes na sociedade brasileira, particularmente nas áreas de zonas costeiras, saúde, biodiversidade, agropecuária, florestas, recursos hídricos e energia. O aumento populacional no planeta não condiz com o aumento na demanda por recursos hídricos e energia, sendo que essa tem aumentado nos últimos 70 anos, três vezes mais do que a população. Há necessidade de mudança de hábitos de consumo, ou seja, mudança de paradigmas. A gestão dos recursos hídricos, uso racional de energia e o planejamento do desenvolvimento, principalmente o urbano, são estratégias para essa mudança.
Notas:
[1] O supercontinente do sul Gondwana incluía a maior parte das zonas de terra firme que hoje constituem os continentes do Hemisfério Sul, incluindo a Antártida, América do Sul, África, Madagáscar, Seychelles, Índia, Austrália, Nova Guiné, Nova Zelândia, e Nova Caledónia. Foi formado durante o período Jurássico Superior há cerca de 200 milhões de anos atrás, pela separação do Pangea. Os outros continentes, nessa altura a América do Norte e Euroásia, ainda estavam ligados, formando o super continente de Laurásia.



[2] Alfred Russel Wallace foi um naturalista, geógrafo, antropólogo e biólogo britânico. 1858, durante uma jornada de pesquisa nas ilhas Molucas, Indonésia, Wallace escreveu um ensaio no qual praticamente definia as bases da teoria da evolução e enviou-o a Charles Darwin, com quem mantinha correspondência. Wallace foi o primeiro a propor uma "geografia" das espécies animais e, como tal, é considerado um dos precursores da ecologia e da biogeografia e, por vezes, chamado de "Pai da Biogeografia”. Em 1848, Wallace e Henry Bates partiram para o Brasil com a intenção de coletar insetos e outros espécimes animais na floresta amazônica e vendê-los à colecionadores na Inglaterra. Também esperavam juntar evidências da transmutação das espécies.


[3] Henry Walter Bates foi um entomólogo e naturalista inglês. Ficou famoso por sua viagem à Amazônia, junto com Alfred Russel Wallace, com o objetivo de recolher material zoológico e botânico para o Museu de História Natural de Londres. Permaneceu no Brasil durante onze anos, enviando cerca de 14.712 espécies (8000 delas novas), a maior parte insetos para a Inglaterra.


[4] Vicariância é o mecanismo evolutivo no qual ocorre uma fragmentação de uma área biótica, separando populações de determinadas espécies. A falta de fluxo génico entre as duas sub-populações agora formadas fará com que elas fiquem cada vez mais diferentes e, mantendo-se a barreira por tempo suficiente, levará à especiação. Estas barreiras podem ser geográficas, como a formação de montanhas devido ao movimento de placas tectônicas, uma falha causada pelo distanciamento de duas placas, o surgimento de um rio etc. As barreiras também podem ser ecológicas, como quando a área entre duas populações torna-se imprópria para a reprodução da espécie. Em ambientes aquáticos, elevações rochosas nos fundos de oceanos podem separar populações de uma mesma espécie que se manterão isoladas, sofrendo todo o processo de diferenciação génica separadamente.
[5] A Rio-92 é o nome pelo qual é mais conhecida a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento realizada em junho de 1992 no Rio de Janeiro. O seu objetivo principal era buscar meios de conciliar o desenvolvimento socioeconômico com a conservação e proteção dos ecossistemas da Terra. Essa conferência consagrou o conceito de desenvolvimento sustentável e contribuiu para a mais ampla conscientização de que os danos ao meio ambiente eram majoritariamente de responsabilidade dos países desenvolvidos. Reconheceu-se, ao mesmo tempo, a necessidade de os países em desenvolvimento receberem apoio financeiro e tecnológico para avançarem na direção do desenvolvimento sustentável.
[6] ISO 14000 é uma série de normas desenvolvidas pela International Organization for Standardization (ISO) e que estabelecem diretrizes sobre a área de gestão ambiental dentro de empresas.

domingo, 28 de dezembro de 2014

O Museu do amanhã

CIÊNCIA, ARTE E OS PRÓXIMOS CINQUENTA ANOS


O Museu do Amanhã inaugura uma nova geração de museus de ciências no mundo. Por meio de ambientes audiovisuais, instalações interativas e jogos, você poderá examinar o passado, entender as tendências da atualidade e imaginar futuros possíveis para a humanidade nos próximos 50 anos.

Em construção no Pier Mauá, região portuária do Rio de Janeiro, com inauguração prevista para o primeiro semestre de 2015, o museu será diferente de tudo o que você já viu. Um espaço único de aceleração de ideias, que convida a mergulhar em experiências onde a ciência e arte, razão e emoção, linguagem e tecnologia, cultura e sociedade se encontram.

No Museu do Amanhã, cada visitante terá a oportunidade de simular o nosso futuro, a partir das transformações do mundo que o cerca. Embarque conosco desde já nessa jornada e descubra por que o Amanhã é hoje!

http://museudoamanha.org.br/conteudo/experiencia/



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Publicação da Revista Espinhaço n. 5 - 2014


ARTIGOS

The occurrence of dumortierite in the Espinhaço Range, Minas Gerais, Brazil, and its mineralogical-crystallographic comparison with other specimen / A ocorrência de dumortierita na Serra do Espinhaço, Minas Gerais, Brasil, e sua comparação (...)PDF
Adolf Heinrich Horn, Yves Fuchs, Soraya de Carvalho Neves, Etienne Balan
Vestígios da mineração de ouro na Serra do Veloso: uma contribuição à geo-história de Ouro Preto-MG / The ancient gold mining site of the Veloso Hills: a contribution to the geo-history of Ouro Preto-MGPDF
Kátia Maria Nunes Campos
Acesso à água no Semiárido Brasileiro: uma análise das políticas públicas implementadas na região / Water access in Brazilian Semi-Arid: an analysis of regional public policiesPDF
Jucilaine Aparecida de Andrade, Marcos Antônio Nunes
Percepção ambiental, conhecimento sobre natureza regional e práticas de Educação Ambiental de professores de zonas urbana e rural do município de Diamantina, MG / Environmental perception, local knowledge and environmental education practices (...)PDF
Maíra Figueiredo Goulart, Núbia Cristina Pinto, Luísa Cunha Cota
Estudo de localização de centrais termoelétricas solares de grande porte no estado de Minas Gerais / Localization study of solar thermoelectric plant in Minas Gerais state, BrazilPDF
Chigueru Tiba, Ruibran Januário dos Reis, Melina Amoni Silveira Soares
Espaço, população e economia: dos subespaços proeminentes ao transporte público premente / Space, population and economics: from prominent subspaces to the pressing public transportationPDF
Ralfo Matos, Rodrigo Nunes Ferreira