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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Marco da Biodiversidade

Nova lei visa facilitar pesquisas e uso comercial de plantas e animais. Projeto foi apresentado em 2014 e aprovado no Congresso este ano.

O Marco da Biodiversidade reforça as regras criadas pela Medida Provisória 2.186-16, de 2001, que incorpora os compromissos assumidos pelo governo perante a Convenção da Diversidade Biológica (CDB), tratado internacional das Nações Unidas que regula o tema.

Apresentado pelo Executivo em 2014, o projeto de lei foi aprovado pela primeira vez na Câmara em fevereiro. Encaminhado ao Senado, recebeu 23 emendas que alteraram o texto. Por isso, teve que voltar a ser analisado pelos deputados. O documento foi aprovado em 27 de abril e encaminhado para sanção da presidente Dilma Rousseff.

O objetivo do projeto de lei da biodiversidade é reduzir a burocracia e estimular a pesquisa e inovação com espécies nativas. No entanto, alguns ambientalistas dizem que o projeto privilegia as empresas e amplia o acesso à biodiversidade sem proteger os povos indígenas e seus conhecimentos tradicionais.

No projeto de lei, patrimônio genético é definido como “informação de origem genética de espécies vegetais, animais, microbianas, ou espécies de outra natureza, incluindo substâncias oriundas do metabolismo destes seres vivos”.

Entre os principais pontos aprovados, estão a retirada de penalidades impostas a empresas que descumpriram regras ligadas à exploração de materiais provenientes de plantas ou animais e a criação de normas de pagamento pelo uso de recursos genéticos naturais por empresas -- tanto para o governo, quanto para povos tradicionais, como os indígenas.

Veja os principais pontos da lei 7.735/2014, sancionada pela Dilma:
Selo 1 (Foto: G1)
Modifica a forma de solicitar autorização para explorar a biodiversidade. Antes, as empresas tinham que submeter uma documentação ao Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGen) e aguardar a aprovação para iniciar os trabalhos. Agora, organizações nacionais podem fazer um cadastro simplificado pela internet.
Selo 2 (Foto: G1)
Se um produto foi criado a partir de material existente na biodiversidade brasileira, a empresa terá que repassar de 0,1% a 1% da receita líquida anual obtida com a exploração econômica. O dinheiro será destinado ao Fundo Nacional de Repartição de Benefícios.
Selo3 (Foto: G1)


Segundo o projeto de lei, índios e povos tradicionais, como quilombolas e ribeirinhos, terão direito a participar da tomada de decisões sobre assuntos relacionados à conservação e ao uso sustentável de seus conhecimentos tradicionais.

Além disso, a exploração econômica de seus conhecimentos deverá ser feita com consentimento prévio por meio de assinatura por escrito, registro audiovisual, parecer de órgão oficial competente ou adesão na forma prevista em protocolo comunitário.
selo4 (Foto: G1)
Os benefícios obtidos da exploração do conhecimento tradicional podem ser pagos em dinheiro ou em ações “não monetárias”, como investimentos em projetos de conservação, transferência de tecnologias, capacitação de recursos humanos ou uso sustentável da biodiversidade.

Segundo ambientalistas, a alternativa "não monetária" pode prejudicar arrecadação de investimentos.Selo5 (Foto: G1)
Microempresas, empresas de pequeno porte, microempreendedores individuais e cooperativas agrícolas estão isentos do pagamento pela exploração econômica do patrimônio genético de espécies encontradas no Brasil.
selo6 (Foto: G1)
Em relação às multas e condenações que foram aplicadas em razão de biopirataria, seguindo a lei anterior, todas as sanções ficam anistiadas a partir da assinatura da Medida Provisória e cumprimento do termo compromisso com a União.
Selo Repartição de benefícios (Foto: G1)
Povos indígenas e comunidades tradicionais somente receberão a repartição de benefício quando o seu conhecimento for considerado elemento principal de agregação de valor ao produto.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Entrevista com a Professora Ercília Steinke da Universidade de Brasília

Entrevista com a Professora Ercília Steinke da Universidade de Brasília,

1. Bioclima: Profa. Ercília, o nosso blog tem muitas acesso de alunos do ensino médio e fundamental. Então a primeira pergunta vem dentro do contexto da variação sazonal. A cidade de Brasília. Qual é o seu comportamento sazonal, quanto à pluviosidade e a temperatura e sua relação com a incidência de doenças do aparelho respiratório?


A cidade de Brasília, assim como todo o Distrito Federal, apresenta as características climáticas do Centro-Oeste, ou seja, verão chuvoso e inverno seco. A estação chuvosa se inicia em outubro e vai até meados de abril, e a estação seca se prolonga de maio a setembro, sendo setembro o mês mais quente e seco. O nosso clima é classificado como Tropical do Brasil Central com 4 a 5 meses secos. A temperatura média anual é de cerca de 21 C, podendo ultrapassar os 32°C em setembro, e chegar a 12°C nas madrugadas de inverno, em julho. Ressalto, porém, que durante o dia, na seca, em função da elevada incidência solar, as temperaturas se mantêm elevadas. A umidade relativa do ar varia muito durante o ano, podendo chegar aos 20% ou, muitas vezes, menos durante o inverno. 
A estação seca é especialmente ruim para a população, pois, nesse período, sem chuvas, e com a umidade relativa do ar atingindo valores muito baixos, às vezes chegando a 10%, a incidência de casos de doenças ligadas ao aparelho respiratório aumenta muito. É muito comum verificarmos os hospitais cheios de crianças e idosos, que são os mais atingidos, com asma, bronquite, enfisema e outras doenças pulmonares obstrutivas crônicas. Recentemente, um aluno ligado ao LCGea, Elton Keliton, fez uma pesquisa sobre o assunto e a sua investigação mostrou que existe uma sazonalidade dos casos de internação por doenças respiratórias no DF, evidenciando que as patologias desse grupo tem, predominantemente, relação inversa com a precipitação pluviométrica, temperaturas máxima, média e mínima e umidade relativa do ar, e relação direta com a pressão atmosférica, ou seja, quando o DF está sob o domínio de sistemas atmosféricos de alta pressão, os casos de internação eram maiores.

2.  Bioclima: Em relação aos problemas ambientais urbanos. Brasília superou os problemas dos eventos pluviais intensos, comportamento característico das chuvas nos períodos de verão e primavera.

Infelizmente no DF verificam-se inúmeros problemas relacionados a eventos pluviais extremos, pois regiões urbanas, cada dia mais abarrotadas de cimento e asfalto, não são preparadas para receberem a chuva, muito menos um volume de chuva elevado. Podemos observar muitas ruas sem bocas de lobo para o escoamento da água da chuva, e as que existem são muito pequenas para aguentar a vazão da água. Na própria área central de Brasília, no Plano Piloto, todos os anos, temos problemas com os viadutos, que aqui chamamos de tesourinhas, que a cada ano que passa, alagam mais ainda. Esse problema tem se intensificado porque essas tesourinhas estão localizadas em uma área mais rebaixada do terreno. Antigamente, a parte mais elevada do Plano Piloto era constituída de vegetação e era uma área onde a água da chuva caía e infiltrava no solo. Hoje, nessas áreas mais elevadas, foram construídos estacionamentos e edifícios, impermeabilizando a área. Ou seja, agora, toda a água da chuva que cai lá, não infiltra mais e escoa para as partes mais baixas – as tesourinhas. Como as bocas de lobo que existem nas tesourinhas não foram construídas para receber tanta água, acabam alagando. Isso sem contar a falta de educação da população em jogar lixo na rua que vai direto para as galerias de águas pluviais. Mas essa é só uma parte do problema...

Professora Ercília Steinke - Departamento de Geografia da Universidade de Brasília,
3. Bioclima: Brasília em 2011 comemorou 20 anos como cidade Patrimônio da Humanidade com um alerta sobre o conforto e a sustentabilidade nas superquadras do Plano Piloto. Com a expansão de Brasília, que provavelmente, descaracteriza o projeto do plano piloto, a questão do conforto térmico piorou? Explicite.

Essa questão é muito delicada para nós, pois perpassa por uma questão social. As áreas nobres do DF, como o Plano Piloto, onde estão as superquadras, não pode ser alterado, pois é tombado. Sendo assim, segue o planejamento original, com muita arborização. A não ser no mês de setembro, quando o tempo fica bem seco e quente, o conforto térmico, nessas áreas, não chega a ser um problema. Porém, nas áreas periféricas, onde vive a maioria da população do DF, a conversa é outra. Nessas áreas há uma intensa e desordenada urbanização. Por isso, as questões da temperatura do ar e da umidade relativa já são importantes. Já fizemos um trabalho que detectou que as áreas densamente construídas, intensamente ocupadas e com elevados índices de calor gerado pelas atividades antrópicas, apresentam-se, de maneira geral, com menores valores de umidade relativa e temperaturas mais elevadas do que aquelas áreas que contam com a presença de vegetação.


4. Bioclima: Agora falando sobre a questão do ensino de Geografia, a Professor vem desenvolvendo projetos de ensino de climatologia, no âmbito da Geografia, nos últimos anos. Nesse contexto, a professora poderia nos apresentar um cenário da atual condição do ensino de climatologia nos bancos escolares.

Bom, posso falar da realidade daqui da nossa região. Tenho pesquisado sobre o tema e conversado com professores e alunos do Ensino Básico. Infelizmente, não vejo mudanças significativas na hora de ensinar temas de Climatologia na escola. O ensino, de forma geral, continua enciclopédico. Os alunos ainda são chamados a memorizarem os tipos de clima do Brasil e os elementos do clima ainda são estudados de forma compartimentada. Vejo novas propostas sendo elaboradas, mas não colocadas em prática, elas não chegam nas escolas. A realidade, o espaço vivido pelo aluno é desconsiderado na hora de estudar Climatologia. Tenho tentado entender porque isso acontece. Compreendo que existem questões estruturais de ensino nas escolas, como carga horária, salário e etc, porém, eu tenho absoluta certeza que, ao invés de memorizar determinados tópicos, os alunos deveraim ser chamados a investigar os acontecimentos ligados ao tempo e ao clima que ocorrem perto deles. Garanto que eles iriam aprender. Por exemplo: aqui em Brasília, um pouco antes de se iniciar nosso período chuvoso, as cigarras começam a cantar (todo brasiliense sabe disso). Todo mundo sabe que quando elas começam a cantar significa que a chuva está próxima e que o período chuvoso vai começar. Isso acontece porque o período de eclosão dos casulos das cigarras só ocorre com a pressão atmosférica mais baixa e com a umidade em elevação. Tenho absoluta certeza que, se o professor levasse seus alunos para um jardim (as cigarras estão em todos os jardins), pegasse uma cigarra (os meninos acham o máximo e as meninas acham nojento) e falasse sobre isso com eles, eles nunca mais iam esquecer, pois faz parte da realidade de cada cidadão do DF. Pergunto: não seria muito mais legal do que ficar memorizando coisas?


5. Bioclima: Para finalizar. Profa. Ercília, como a Climatologia pode ser ou se transformar em um instrumento de gestão do espaço. Uma vez, que embora o conceito de cidade sustentável esteja em evidência, a especulação imobiliária também é intensa. Como a climatologia se insere nesse debate.

O meio urbano, onde a especulação imobiliária ganha destaque, apresenta três dimensões, a social (renda, educação, saúde, segurança), a ambiental (clima, aspectos físicos, nível de poluição) e a perceptiva (bem-estar e condições de vida). Porém, acredito que os gestores das cidades, apesar de afirmarem que compreendem a relação existente entre essas três dimensões, no momento de qualificar qual delas tem mais ou menos peso, sempre desconsideram os aspectos climáticos. Isso ocorre, talvez, porque o clima é algo quase abstrato, que não se enxerga. Já ouvi que o clima é a última coisa em que se deve pensar ao gerir uma cidade. Se assim for, algumas perguntas devem ser feitas: Ora, como irá haver bem-estar para a população se o calor produzido pela cidade não for amenizado por vegetação? Como a população vai conseguir ter boas condições de vida se seus carros ficam presos em alagamentos promovidos por falta de drenagem adequada depois de uma chuva intensa? E as doenças de veiculação hídrica, como evitá-las se a enchente ocorreu? Sem falar na segurança: recentemente uma menina morreu afogada dentro de um ônibus porque ele ficou preso dentro de um viaduto durante uma chuva forte. Temos segurança para andar nas ruas durante esses eventos de chuva? Essas minhas perguntas demonstram o quanto é importante considerar os aspectos climáticos na gestão do espaço. Esses aspectos, pelo menos em pouco tempo, não vão mudar. Sendo assim, o que tem que mudar é a cidade para se adaptar. O que tem que mudar é a cabeça dos gestores. A cada ano que passa novos alagamentos ocorrem novas enchentes, deslizamentos. E não adianta colocar a culpa na chuva.




segunda-feira, 4 de maio de 2015

Conflitos ambientais Globais


Os conflitos do país, segundo o Atlas Global de Justiça Ambiental, estão ligados à abundância de projetos de infraestrutura relacionados ao meio ambiente. São obras, como a construção de hidrelétricas, que dividem ativistas e empreiteiras; e o setor agrícola, cujas plantações invadem unidades de conservação.
— O crescimento da população mundial provocará uma busca cada vez mais intensa por commodities, e o Brasil, que é rico em terra, água, petróleo e minérios, será um alvo — descreve Leah Temper, coordenadora do Atlas. — E este recursos estão em terras ocupadas por indígenas, quilombolas e pequenos agricultores. Estes grupos serão os mais afetados.
Entre os conflitos ecológicos brasileiros estão episódios de grilagem para especulação imobiliária e a disputa por regiões que poderiam receber projetos como barragens hidrelétricas. São instalações que ampliam a geração de energia por uma matriz energética considerada limpa, mas que provocam alto impacto ambiental no local de sua construção.


Apesar do processo de industrialização nacional ter catapultado nas décadas passadas, as exportações do Brasil são altamente dependentes de produtos do setor primário. Em 2012, metade dos produtos comercializados para outras nações vinham do agronegócio — carne, soja, etanol, por exemplo — e outros semiacabados, entre eles alumínio e aço bruto. O potencial econômico do campo leva extrativistas a se aventurarem em reservas indígenas.

Professor de Direito Ambiental da Fundação Getúlio Vargas, Rômulo Sampaio lembra que a exploração de commodities sempre gera disputa de interesses.

— O petróleo, por exemplo, provoca interesses nacionais, conservacionais e do mercado privado — destaca. — No campo, o problema fundiário torna o conflito ainda mais agudo, devido à desigualdade na distribuição de propriedades.

Sampaio atribui os dilemas ambientais e suas consequências sociais a falhas graves na legislação.

— Não há uma discussão sobre como lidar com os conflitos — condena. — Falta uma orientação, uma política pública. O debate só aparece na hora de implementação de cada projeto. Por isso, aumenta o número de ações no Judiciário.

A Fiocruz realiza, desde o ano passado, um catálogo sobre injustiças ambientais no Brasil. O órgão foi uma das fontes do mapeamento da UAB e, em trabalhos independentes, destaca os danos à saúde coletiva provocados pelos conflitos ecológicos. Nas grandes cidades, moradores no entorno de lixões estão sujeitos a doenças respiratórias, dengue e leptospirose.

Já a atuação da indústria em áreas próximas a rios leva à alteração do ciclo reprodutivo da fauna, a doenças cardíacas e à insegurança alimentar.

— Analisamos denúncias de problemas de saúde causados por conflitos ecológicos, como a contaminação de rios por agrotóxicos — revela Marcelo Firpo Porto, professor do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana, da Escola Nacional de Saúde Pública. — As doenças estão ligadas à degradação dos ecossistemas.

Em seu novo mapeamento, a Fiocruz já identificou 450 casos de conflito ecológico no Brasil.

— Levamos ao mapeamento da UAB os casos mais emblemáticos, relacionados ao comércio internacional — conta. — Mas conhecemos muitas outras ocorrências, de âmbito regional ou nacional.

No Rio, por exemplo, a Zona Oeste registra dois casos que seriam atentados à justiça ambiental. O polo industrial de Santa Cruz já provocou emissões de uma poeira de ferro e carbono, que causa danos ao aparelho respiratório.

Na Barra da Tijuca, moradores de comunidades vizinhas à Vila do Autódromo são ameaçadas de remoção devido à especulação imobiliária. A região receberá instalações para os Jogos Olímpicos. Segundo a Fiocruz, alterações já realizadas pelo assoreamento de recursos hídricos no local pioram a qualidade de vida da população.

Para Sampaio, as comunidades urbanas e rurais têm em comum a falta de mobilização, que permite a sobrevivência de problemas seculares.

— Não existe uma organização social entre as comunidades menos favorecidas, o que prejudica sua representatividade — assinala.

Leah, que está à frente da organização do Atlas, reconhece que o mapeamento ainda tem um longo caminho para percorrer. Nesta primeira edição, o trabalho contou com a adesão de 23 universidades e ONGs de justiça ambiental de 18 países.

‘Dívida ambiental’

O levantamento não chegou a regiões expressivas do planeta, como a China, a Ásia Central e o Oriente Médio.

— Temos muitos lugares em branco no mapa — reconhece. — Mas, agora que ele é público, vamos convidar pesquisadores e ativistas dessas regiões para documentar outros conflitos e expandir o nosso conhecimento.

A coordenadora do Atlas, no entanto, assegura que a iniciativa já confirma um padrão histórico.

— O Hemisfério Sul continua suprindo as nações desenvolvidas com manufaturas de baixo preço e pagam um alto preço ecológico. As nações ricas têm uma “dívida ambiental” — analisa.





sexta-feira, 1 de maio de 2015

Mudanças climáticas: Um debate urgente

Mesmo no mais destacado bastião do ceticismo, os Estados Unidos, aumenta o consenso de que o planeta corre perigo e que a reação deve começar já No calendário das mudanças climáticas, 2014 poderia ser assinalado como o ano em que os céticos da responsabilidade humana no aquecimento global entraram de vez para o grupo das espécies em extinção. Pelo menos em credibilidade, seus argumentos se derreteram bem antes do que o gelo marinho do Ártico.

Em uma declaração emblemática do momento atual, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, comparou os que ainda negam o fenômeno aos que antes pensavam que a Lua era feita de queijo. Foi em junho de 2014, quando anunciou US$ 1 bilhão para financiar medidas que atenuem as mudanças climáticas. Embora os Estados Unidos continuem entre os três países do mundo não signatários das convenções de clima – ao lado do Vaticano e de Andorra –, o pacote ambiental mostra que até a nação mais poderosa do planeta começa a se curvar à pilha de evidências científicas que comprovam que a Terra está febril. E que a culpa é nossa. Não por acaso, o anúncio ocorreu após a divulgação dos dois últimos relatórios da quinta edição do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, em março e abril deste ano. Com a participação de mais de 800 pesquisadores de 130 países, o estudo prevê que as emissões de gases causadores do efeito estufa elevarão a temperatura média do planeta entre 2,6°C e 4,8°C até o fim do século. E conclui, com “95% de certeza”, que o homem foi o principal responsável pela elevação das temperaturas, especialmente a partir de 1950.

– Os que negam a mudança climática sugerem que ainda existe debate científico, mas não existe – definiu Obama, considerando encerrada a polêmica.

As projeções feitas pelo Painel de Mudanças Climáticas da ONU são tão contundentes que ignorá-las virou um risco. A elevação da temperatura é associada a riscos crescentes de eventos climáticos extremos, infestação de doenças associadas a mosquitos, falta de água e de alimentos. Nada muito diferente do que cientistas já vinham alertando, mas com cada vez maior base de confiabilidade. E de urgência.

– 2014 é um ano importante nessa discussão de mudanças climáticas. Chegamos ao quinto relatório do IPCC e ele deixa claro que a gente já ultrapassou o ponto em que a mitigação das emissões de poluentes seria suficiente para reverter o quadro. Agora precisamos falar em adaptações. Mesmo que parassem todas as emissões, pelos próximos cem anos ainda sentiríamos os efeitos – argumenta Fabio Scarano, vice-presidente sênior da divisão Américas da Conservação Internacional e professor da UFRJ, que foi um dos responsáveis pelo capítulo da América Central e do Sul do IPCC.

Os sintomas estão em toda parte. Porto Alegre teve o janeiro mais quente de sua história e, atualmente, São Paulo sofre com a falta crônica de água. Situações que tendem a se agravar nas próximas décadas, com mais enchentes na região Sul, seca no Sudeste e riscos de desertificação em regiões da Amazônia e do Nordeste. Mas, claro, nada é tão ruim que não possa piorar. O professor Marcos Buckeridge, do Instituto de Biociências da USP, explica que o aumento da concentração de gás carbônico na atmosfera tem como consequência uma espécie de “obesidade vegetal”. Assim, apesar de as plantas crescerem mais, por fazerem mais fotossíntese com o CO2, perdem nutrientes, porque a concentração de nitrogênio é reduzida. A se confirmarem as previsões de que a concentração de gás carbônico na atmosfera dobrará até 2080, o percentual de nitrogênio das plantas cairá 7%, afetando a qualidade agrícola.

– Talvez seja preciso mudar o cultivo das regiões, e isso custa dinheiro. É o custo da mudança climática. A qualidade da soja vai baixar, o alimento pode se tornar mais caro, o que pode levar a problemas econômicos, porque a qualidade esperada pelo comprador pode não ser correspondida – enumera Buckeridge.

Em vez de se ater a um discurso apocalíptico, no entanto, os pesquisadores preferem mirar nas oportunidades de uma virada sustentável. Visto como um bom exemplo ambiental no cenário global, o Brasil teria chance de ser protagonista da mudança.

– O Brasil é o celeiro do mundo, poderíamos aproveitar este momento para produzir mais comida. Para isso, precisaríamos de uma nova revolução verde, investindo em técnicas de biologia molecular – defende Buckeridge.

A virada também passa por mudança nas fontes de energia. Segundo Suzana Kahn, professora do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da UFRJ e vice-presidente do IPCC, 80% do aumento das emissões dos gases do efeito estufa se deve à queima de combustíveis fósseis, o que torna a questão do aquecimento global um problema no uso de energia. E os obstáculos para a transição são mais de natureza econômica do que tecnológica.

– As tecnologias existem. Temos veículos elétricos, biocombustíveis, energia solar. Não precisamos descobrir nada novo, mas passa por uma questão de economia, de mudar o modelo, retirar subsídios de setores poluentes. Com isso já é possível reduzir significativamente as emissões. Algumas mudanças já estão acontecendo, tanto que, mesmo com a crise, foram as energias renováveis as que mais cresceram – pondera Suzana.

Colocar a culpa nos custos não serve como desculpa para a inércia. Fabio Scarano, da Conservação Internacional, lembra que medidas baratas como proteger os mangues podem ser tão eficazes como construir caríssimos diques para conter a elevação do nível dos oceanos.

– Ficou provado que, quando o tsunami atingiu as ilhas do Pacífico, as que tinham mais cobertura vegetal na costa sofreram menos impacto do que as que não tinham – exemplifica Scarano.

Diante das adversidades climáticas, a gestão das cidades precisará ser repensada para evitar o caos. Em vez de agir nas emergências e se espantar com cada “chuva histórica”, governantes precisarão investir em planos de contenção de longo prazo.

– Existe uma tendência de culpar a natureza, mas onde as pessoas mais atingidas costumam morar? Geralmente em áreas de risco, com drenagem negligenciada ao longo dos anos. A mudança no clima vai exigir outra maneira de pensar nas ações, especialmente na gestão pública. É uma mudança global, mas requer ações locais – defende o biólogo Jackson Müller, professor da Unisinos.



Aos que preferem criticar o IPCC como instrumento político, o climatologista do Centro Polar e Climático e chefe do Departamento de Geografia da UFRGS, Francisco Aquino, contrapõe com a ciência:

– Que decisão os governos vão tomar com base no relatório, a ciência não opina. A ciência não tem lado. É uma resposta, soma dois com dois e dá quatro. Essa minoria cética não tem nada de substancial na produção científica internacional. Não é que a gente não os queira, a gente não tem como considerar.

Os prognósticos indicam que os mais pobres serão inicialmente os mais impactados pelas mudanças, mas o problema está longe de ser uma questão de classe: não há imunidade climática.

– Se a sociedade quiser virar as costas e achar esse problema não vai chegar na sua casa será um grande engano, porque isso já está no quintal de todo mundo. É um fenômeno global. Não tem como escapar – alerta Aquino

Junho deste ano foi o mais quente desde 1880
Basta olhar para o mapa de anomalias climáticas produzido pela Nasa (na ilustração deste post) para enxergar como o planeta está esquentando. A temperatura média em junho de 2013 ficou 0,61ºC acima do padrão histórico entre 1951 e 1980. Na ilustração, é possível identificar os pontos de aquecimento, assinalados pelas cores amarelo, laranja e vermelho. O Brasil acompanha a onda. Na maior parte do Rio Grande do Sul, a temperatura média ficou 1ºC acima da média. Outra medição, feita pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), mostra que a temperatura média no mês de junho deste ano foi a mais quente desde que os registros começaram, em 1880.

O MUNDO COM FEBRE

> O Brasil está aquecendo em todas as regiões, com chuvas irregulares. No Rio Grande do Sul, a tendência é mais calor e chuva: além da elevação das temperaturas, que fez Porto Alegre registrar em 2014 o janeiro mais quente desde o início das medições, em 1916, o volume de precipitações já aumentou 8% em relação aos padrões históricos de 1945 até 1974.

> Os Estados Unidos enfrentam uma das piores secas de sua história recente. Em maio, mais de 30% do país registrava seca, tendo pelo menos sete Estados com estiagem severa em metade do território. Em compensação, junho deste ano foi o sexto mais úmido desde que as medições nacionais começaram, em 1895.

> As emissões crescentes de gases de efeito estufa aumentarão significativamente o risco de inundações na Europa, especialmente na região litorânea. Já no sul do continente a seca deve se acentuar, reduzindo a disponibilidade de água, afetando a produtividade agrícola.

> Até 2020, projeta-se que entre 75 e 250 milhões de pessoas sejam expostas à maior escassez de água na África, com redução de até 50% na produção agrícola irrigada pela chuva e ameaças de desertificação.

> Na Ásia, o derretimento das geleiras no Himalaia deve aumentar as inundações e avalanches de pedras de encostas. As cheias ameaçam mortalidade endêmica por diarreia e cólera. Bangladesh é um dos países mais ameaçados: até 2050, pode perder 17% de seu território pela elevação do nível do mar, o que obrigaria o deslocamento de 18 milhões de pessoas.

> Previsão de agravamento de períodos de seca na Austrália. Em junho deste ano, choveu 28% da média normal para o mês no oeste do país. Problemas de falta de água devem se intensificar até 2030, com perda significativa de biodiversidade.

> Se continuar neste ritmo, há risco de que, em 2050, o Ártico não tenha mais gelo marinho. A mudança promove a abertura de novas rotas marítimas e prospecções petrolíferas, mas também pode acirrar disputas entre potências pelo controle.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Impacto das chuvas em Salvador (Abril de 2015)

Fortes chuvas na segunda-feira (27 de abril de 2015) em Salvador deixou um rastro trágico: 14 pessoas morreram, na maior parte devido a deslizamentos de terra que destruíram várias casas nas cidades de Barro Branco e Marotinho, conforme relatado pela Defesa Civil Salvador.

Além disso, o Hospital Santo Antônio foi completamente inundado e os pacientes tiveram que ser levados para outros centros. A paisagem na capital baiana foi inundado ruas e vizinhos que viajam de caiaque ou pranchas de surf. Ter aulas canceladas nas escolas e dezenas de famílias foram expulsas.

Tais tragédias são comuns a cada estação chuvosa, quando encontram residencias construídas nas encostas das montanhas, que facilitam o escoamento da água. Há quatro anos, nas montanhas que cercam Rio de Janeiro 916 pessoas morreram e 35.000 ficaram desabrigadas pelo mesmo motivo.

Enquanto ainda está fazendo a contagem de corpos e avaliar os danos, um vereador do Partido de esquerda Socialismo e Liberdade (PSOL), Hilton Coelho, apontou a responsabilidade do Município, que acusa de não ter um plano de reassentamento para os residentes mais pobres, que vivem em áreas de risco.

"As chuvas limpou o cosmético, hub, modelo de desenvolvimento elitista e racista da cidade de Salvador. E ele não está sozinho. As outras administrações não fizeram nada para mudar a lógica da exclusão", lamenta Coelho, criticando que as melhorias apenas privilegiam as zonas de especulação imobiliária.

A presidente Dilma Rousseff expressou suas condolências em um comunicado e autorizou as Forças Armadas para atuar na área. Precisamente segunda-feira Rousseff tem sido outro helicóptero catastrófica pairando na outra área extremo do país; Xanxerê, no sul do estado de Santa Catarina.

Há uma semana um tornado forte desabrigadas mais de mil pessoas e causou duas mortes atrás. O dano excedeu 104 milhões de reais, embora atualmente Rousseff anunciou que o governo irá contribuir 5,8 milhões para começar a reconstruir a cidade.
 
Veja as imagens de satélites postadas pelo climatempo sobre a circulação atmosférica responsável pelas chuvas intensas em Salvador.
 
 


 
Agora veja o mesmo fenômeno pelas cartas sinópticas da marinha.
 
 

 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Desmatamento da Amazônia Legal aumenta 195%

O desmatamento da Amazônia legal foi 195% maior em março de 2015 em comparação ao número registrado no mesmo mês em 2014. De acordo com o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), foram desmatados 58 quilômetros quadrados ante a 20 quilômetros quadrados no ano passado. As áreas se concentraram principalmente no Mato Grosso, com 76%, e no Amazonas, com 13%. A menor ocorrência foi nos Estados de Rondônia (8%), Tocantins (2%) e Pará (1%).

O desmatamento acumulado no período de agosto de 2014 a março de 2015, que corresponde aos oito primeiros meses do calendário oficial de medição de áreas desmatadas, atingiu 1.761 quilômetros quadrados. O número é 214% superior ao medido no período anterior, entre agosto de 2013 a março de 2014, que foi de 560 quilômetros quadrados. Até o momento o Mato Grosso lidera o ranking com 36% do total desmatado no período. Em seguida aparece Pará, com 25%, e Rondônia, com 20%.

Os números também apontam que a maioria do desmatamento em março ocorreu em áreas privadas, com 86%. Assentamentos de Reforma Agrária correspondem a 9%, e Unidades de Conservação, 5%. No caso das terras indígenas, não houve detecção de áreas desmatadas.

O SAD também registrou 15 quilômetros quadrados de florestas degradadas, que são intensamente exploradas pela atividade madeireira e queimadas, frente a 5 quilômetros quadrados registrados em março de 2014. Do total, 97% ocorreu no Mato Grosso, seguido pelo Amazonas, com 3%.

Neste levantamento foi possível monitorar 47% da área florestal na Amazônia Legal. Os outros 53% do território florestal estavam cobertos por nuvens, o que dificultou a detecção do desmatamento e da degradação florestal. Desta forma, os dados apresentados podem ter variações. 
 
http://revistagloborural.globo.com/Noticias/Sustentabilidade/noticia/2015/04/desmatamento-da-amazonia-legal-aumenta-195.html